O Pianista do Diabo
Como nasce um radical e, o que é mais importante, o que podemos fazer a respeito
"O fanático é governado mais pela necessidade de odiar do que pela vontade de acreditar."
Eric Hoffer
Ernst Hanfstaengl não chamava atenção apenas pelos 1,93m. Nascido em Munique, filho de um alemão com uma americana, era chamado ironicamente de “putzi” pelos amigos, uma maneira brega de dizer algo como “garotinho” e “bonitinho” em alemão. Ele era culto, carismático, comunicador habilidoso e um pianista e compositor de talento.
Depois de se formar em Harvard, o alemão falador se mudou para Nova York e ficou amigo dos presidentes Teddy e Franklin Roosevelt, do barão da imprensa William Randolph Hearst e até de Charlie Chaplin. Quando estourou a Segunda Guerra, chocou um amigo ao pedir que fosse enviado para a Alemanha para colaborar com seu país de origem, o que nunca aconteceu.
Em 1922, Ernst Hanfstaengl finalmente conseguiu voltar para sua Bavária natal. Um velho amigo de Harvard, o capitão Truman Smith, convidou Ernst para ver um comício de um jovem que, segundo Smith, “era capaz de dar um discurso completo a partir de uma simples pergunta”. O capitão havia ficado impressionado com o agitador numa conversa informal e queria ver como ele se saia em frente a uma platéia de verdade.
O ex-aluno da mais famosa universidade do mundo, criado entre artistas, políticos, ricos e intelectuais, amigo de presidentes e celebridades, ficou completamente embasbacado com o discurso, que misturava doses de afirmações, insinuações e ironias de um jeito que ele nunca viu “tão bem combinados”.
Após o comício, Ernst foi apresentado ao orador e disse: “concordo com 95 por cento do que o senhor disse e adoraria, um dia, poder discutir o restante”. A resposta derrubou o que ainda restava de resistência: “tenho certeza de que não vamos brigar por causa de míseros cinco por cento”. O “putzi” estava fisgado.



